A LUCIDEZ FACILITA O TRABALHO DAS EMOÇÕES CONSTRUTIVAS

POR JOSÉ JOACIR DOS SANTOS - Psicoterapeuta e Jornalista – www.joacir.jor.br

 

O mundo das emoções é tão frágil quanto uma pluma. O contexto no qual elas acontecem é quem dá a forma, a dimensão, o valor e a duração de suas memórias em nossas vidas. As memórias viajam no tempo, de uma vida a outra até que percam a força do seu significado e a chave para essa desintegração acontecer depende muito da vontade do portador. A vontade, como o pensamento, pode ser construtiva ou destrutiva e esta última aparenta ter mais força porque é descontrolada como a chuva que desencadeia um deslizamento de ladeira a baixo, sem fazer julgamentos sobre quem estará sendo afetado pelo caminho. A gente nem percebe que é a força, a chuva e o deslizamento ao mesmo tempo e embarca no ciclo das encarnações repetindo as mesmas fraquezas.
Como o objetivo final é a evolução, a gente nasce e precisa aprender tudo do nada. Das palavras ao afeto, a falta ou o excesso, tudo faz parte da formação da personalidade que um dia vai enfrentar a si mesma. Administrar esse enfrentamento é o grande desafio da vida e tanto pode significar um salto para o futuro quanto um pulo para um buraco profundo. O segredo de uma boa administração está na capacidade de ver o todo e o individual ao mesmo tempo, com clareza, de forma a poder juntar as peças de uma forma ou de outra quando isso for necessário. Muitos não têm essa capacidade e por isso precisam ter a sorte de nascer em um ambiente sadio, perseguir a escolaridade com unhas e dentes, se submeter a todos os caprichos sociais destinados a tirar suor do rosto, e não se envolver com nada que ponha a perder todo o fio da meada. Do contrário, o caminho pode ser dolorido e em vão. Não faz a menor diferença o status social da família e os fatores genéticos e culturais têm um papel secundário ou menor que isso em todo o jogo.
O fato é que trazemos uma bagagem a ser trabalhada que vai se juntar às emoções das outras pessoas, pai, mãe, irmãos, parentes, amigos.. e isso coloca a todos nós no mesmo patamar, embora ninguém seja igual a ninguém. Dependendo da nossa capacidade de lidar com a nossa própria personalidade, as emoções passam a ser divididas em duas categorias: construtivas e destrutivas, apesar de que a linha que separa uma coisa da outra seja igual, digamos, a um décimo do diâmetro de um fio de cabelo. Podemos vivenciar os dois lados da moeda a qualquer momento e essa dança na balança é plenamente natural. Quando a balança começa a pesar para um lado então o desequilíbrio está estabelecido.
Ninguém pode medir, pesar, nem avaliar a dimensão de uma emoção, mas podemos dizer que cada emoção tem seu peso no nosso arquivo geral. As emoções construtivas impulsionam para a realização do projeto de vida a qualquer custo, enfrentando todas as barreiras e dificuldades, embora muitas vezes a gente não tenha certeza se está no caminho certo e qual será o próximo passo. As emoções destrutivas são poderosas e trabalham no boicote pessoal, puxando sempre para baixo. De uma brincadeira ela cresce e toma a forma de verdade e vira um monstro que se volta contra o criador brincalhão. As vezes esse processo é só mental e quando assim é cria raízes muito fortes, firmes, sutis, perigosas, contaminadoras. Você pode inventar uma história triste para chantagear as pessoas porque você talvez tenha aprendido que a chantagem funciona, sem saber que essa história triste vai ser arquivada em todas as suas células e passará a ser parte da sua história real. Com o tempo, o conjunto de todas as histórias, tristes e alegres, nos acompanharão e influenciarão em todas as decisões da nossa vida. Da sexualidade à funcionalidade, todo equilíbrio é o resultado das nossas memórias. Quase todos os casos de depressão profunda são o resultado do arquivo de emoções destrutivas construído pela própria pessoa. Há atores que precisam passar por terapias intensivas depois de desempenhar papéis de personagens destrutivas.
Em seu livro Psychoanalytic Diagnosis, Nancy McWilliams diz que "pessoas com estados depressivos profundos acreditam que são as piores do mundo. Elas lamentam sua avareza, seu orgulho, sua raiva, sua inveja, sua luxúria", suas incapacidades, seus defeitos e até o nariz que está ficando torto. "Elas consideram esses aspectos de uma experiência natural de vida como sendo perversos e perigosos. Elas pensam que as emoções destrutivas que tomam conta da mente são herança". Acreditam que tem algo dentro delas e imaginam até estão sendo vítimas de um trabalho feito em terreiro de macumba. Ou ainda que estão dentro de si as energias negativas dos outros. Na verdade é a própria brincadeira que tomou fôlego, cresceu e agora quer ter vida própria e um largo espaço na mente que lhe criou. E esse desencadeamento de pensamentos faz aumentar e deturpar a dimensão dos fatos reais, de forma que naquilo que elas se acham ruins passa a ser muito maior porque as nossas células trabalham na velocidade da luz e não questionam nem fazem julgamento do conteúdo dos nossos pensamentos, os quais são lidos como ordens a serem executadas imediatamente.
É preciso ter muito cuidado com a direção que damos a nossas emoções. Elas levam o melhor de nossas energias. A gente pode encalhar em uma emoção vivida em um certo momento da vida e passar a ver toda a vida pelo prisma dessa experiência, como se houvesse uma enorme lente presa em nossos olhos, um filtro destrutivo fiel ao gancho que lhe prendeu lá atrás. Por exemplo, todos os homens passam a ser estúpidos, cruéis, imundos, desprezíveis porque a sua primeira experiência com o sexo foi abusiva, forçada, sem prazer, cheia de dor, raiva e nojo. Todas as mulheres podem passar a ser chatas, intolerantes, insuportáveis da mesma forma que era a sua frustrada mãe.
Reencontrei em um supermercado um amigo de infância. Só nos reconhecemos porque ambos faziam uma encomenda e davam o nome ao balconista. Fisicamente jamais nos reconheceríamos. Depois de certificar quem era quem, a primeira coisa que ele me perguntou foi se eu me lembrava do pé de manga onde juntos fizemos muitas apostas sobre quem achava a manga maior. A nossa vida em comum parou naqueles anos da infância, onde nos separamos e não trocamos mais informações. Mesmo estando ambos na faixa dos quarenta anos, as suas memórias em relação a mim só existiam até os verdes anos das apostas na mangueira. Naturalmente que se lhe desse corda ele me contaria detalhes daquele tempo e seria capaz de passar o dia falando no assunto. Esses ganchos no tempo são poderosos. Ele não conseguiu me perguntar nada sobre a história inteira da minha vida!
Como equilibrar então a balança e perceber as emoções como um processo natural da vida? A base sólida para a construção de uma personalidade sadia é a lucidez. Tudo o que tira a lucidez do pensamento contribui para a vulnerabilidade do sistema emocional. Entram aqui todos os vícios e até os comprimidos e chazinhos para dormir. A lucidez proporcionada a nitidez da percepção dos fatos e das intenções das pessoas. Uma mente lúcida é mais capaz de positivar os pensamentos, controlá-los e colocá-los a serviço da concretização dos projetos de vida. Mesmo experimentando as ondulações da vida, carregadas de opostos como amor e ódio, riqueza e pobreza, aceitação e rejeição, maldade e bondade, fidelidade e traição, uma mente lúcida e sadia é capaz de superar as adversidades e trabalhar para a própria felicidade. A lucidez é solidificada pela vontade construtiva, que é um exercício diário, repetitivo, incansável, persistente. Antes de qualquer coisa é preciso que cada um de nós tenha consciência do poder da mente, tão badalado e pouco explorado. A gente sempre acha que isso é para as outras pessoas e nunca para nós mesmos. É tudo uma questão de escolha pessoal. Quem não toma conta de si mesmo deixa o espaço aberto a todas as forças da natureza, como folhas de papel ao vento, sem rumo, direção e projeto de vida, que acabará fazendo parte de um lixo qualquer.