O QUE CHAMAMOS DE HOLISMO
Suas implicações na realidade
Katiana Karlla da N. de Medeiros
Vive-se um tempo
em que novas configurações do real teimam em emergir. É
um momento de transição e, não diferentemente de outros
momentos históricos de mudanças, há milhões de dúvidas
e incertezas. O ser humano tenta encontrar respostas para os mistérios
da vida e para aquilo que não sabe explicar. Alguns se voltam para a
chamada e admirada Ciência, para o que é científico, com
os mesmos padrões e referências que já não respondem
muita coisa e mesmo assim, tornam-se cada vez mais céticos. Outros, contudo,
interiorizam-se, procuram em seu eu as suas respostas, em seu interior, nas
religiões e em outras formas, muitas vezes patologizadas pelo saber acadêmico
e reconhecidas como não reais ou não válidas.
Mas o que está causando tanta confusão? O que vem acontecendo
com o mundo ultimamente? Quais as reais e efetivas mudanças que vêm
ocorrendo? É no intuito de minimizar esses questionamentos e de fazer
uma reflexão pessoal que o presente artigo relata e discute um pouco
a problemática posta, tendo por base o que se chama de holismo e as suas
implicações na realidade.
Dessa forma, até o momento atual, dominou na ciência e nas outras áreas do conhecimento, científico ou não, o paradigma newtoniano-cartesiano, configurado pelas descobertas de Isaac Newton e René Descartes inicialmente, nos séculos passados, e com características predominantemente racionais e dedutivas. Nesta visão de realidade e de homem, portanto, só é verdade, só tem existência concreta no real, os fenômenos percebidos pelos órgãos sensoriais do nosso corpo ou o que é medido por instrumentos tecnológicos altamente precisos. Tudo aquilo que não pode ser medido, quantificado e experienciado, não é real. A influência do método no campo da psicologia reflete-se, por exemplo, em se acreditar que a consciência e os processos mentais nada mais são do que produtos do cérebro, das conexões e sinapses entre os neurônios, das modulações bioquímicas, enfim, restringe-se o pensamento e toda atividade mental à atividade neuronal. Não se pode negar segundo Grof que [...] nossas funções mentais ligam-se a processos biológicos de nosso cérebro. Entretanto, isso não significa, necessariamente, que a consciência origine-se desses processos ou seja produzida pelo cérebro. (1994, p.17). Por conseguinte, muitos fenômenos continuam não sendo entendidos e explicados, permanecendo na ordem do sobrenatural, das religiões, das patologias. O conflito básico entre a ciência e a religião permanece de uma forma geral e simplista. Mas é a própria ciência, naquilo que o paradigma newtoniano-cartesiano não consegue explicar que se permite o surgimento de novas concepções e de novas visões da realidade.
Neste sentido fizeram-se e ainda se fazem milhares de descobertas em vários domínios: física, neurologia, psicofisiologia, parapsicologia, biologia molecular entre outros. Alguns marcos iniciais, por exemplo, foram a Teoria da Relatividade de Albert Einstein e a Teoria dos Quanta de Max Planck. Descobre-se a equivalência entre energia e matéria (E=m.c²); o dualismo partícula/onda é demonstrado; o espaço deixa de ser tridimensional e o tempo deixa de ser independente; pesquisas no campo da neurociência voltam-se para o estudo da consciência, tentando compreender seu estado ordinário e seus estados alterados (por exemplo: meditação, hipnose, sonhos) por meio de ondas alpha, theta e delta.
Todas essas mudanças já refletem um pouco a emergência do novo paradigma, o paradigma holístico. Desse modo, a palavra holismo vem do grego holos, significando o todo, totalidade. Aparece pela primeira vez na obra Holismo e Evolução de Smuts em 1921. Trata-se de uma abordagem sistêmica da vida e do mundo.segundo Pierre Weil, em seu livro A morte da morte, a abordagem holística é [...] um enfoque global, interdisciplinar, em que tudo é considerado: os métodos experimentais e experienciais, racionais e intuitivos, descritivos e especulativos. (1995, p.25), havendo uma inter-relação e interdependência de fenômenos físicos, biológicos, psicológicos, sociais, culturais e espirituais. São características do novo paradigma o paradoxo; as tendências a existir e a ocorrer, não mais a certeza e o determinismo; até algo que parecia ser tão determinista como a física, passa a ser probabilística.
Talvez as palavras-chaves dos tempos atuais sejam ir além, há sempre algo além do túnel, além do arco-íris, e que deve ser integrado a essa mínima realidade que os nossos sentidos nos permite conhecer e a nossa razão nos permite compreender. Quanto conhecemos de nós mesmos, do nosso funcionamento cerebral, da nossa mente? Creio que o importante agora é saber que Em nosso estágio evolutivo atual, estamos longe de entender com clareza os íntimos fenômenos da natureza, seja no macro (universo), seja no microcosmos (ser). Assim, não temos resposta ainda para as inúmeras perguntas que surgem. (Teixeira).
Fingir que nada acontece é fechar-se no conservadorismo, acreditar, como o cético, no que ver e no que pega. No outro extremo, não se pode afirmar que se chegou ao fim, que tudo foi descoberto e compreendido, que o novo paradigma holístico, o qual ainda está em processo de gestação ao meu ver, dá conta de tudo e de todas as realidades, afinal o que é real?! Se o antigo paradigma deu brechas para novas arrumações quem nos garante que não surgirá um outro a alguns séculos?! Faz parte da evolução. Na minha opinião, os extremos são perigosos, há de se encontrar um equilíbrio, o qual creio ser, no momento, algo muito individual apenas. Como nas palavras de Grof, Não somos apenas animais muitíssimos evoluídos, com computadores biológicos encaixados em nosso cérebro. Somos também campos ilimitados de consciência transcendendo tempo, espaço, matéria e causalidade linear. (1994, p.33). Porque, enfim, há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã [psicologia]. ...
REFERÊNCIAS E BIBLIOGRAFIA:
GROF, S. A mente holotrópica: novos conhecimentos sobre psicologia e pesquisa da consciência. Tradução de Wanda de Oliveira Roselli. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco,1994.
________ Além do cérebro: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia. McGraw-Hill.
GUIMARÃES, C. Percepção e consciência. João Pessoa: Persona, 1996.
TABONE, M. A psicologia transpessoal: introdução à nova visão da consciência em psicologia e educação. São Paulo: Cultrix.
WALSH, R.; VAUGHAN. (orgs.). Caminhos além do ego: uma visão transpessoal. Tradução de Marta Rosas. São Paulo: Cultrix
WEIL, P. A morte da morte: uma abordagem transpessoal. Tradução de Regina Fittipaldi. São Paulo: Gente, 1995.
TEIXEIRA, H. Holismo
e medicina. In: MEDONLINE: sua revista virtual de medicina. Volume 1
Número 8 Ano I (Out/Nov/Dez de 1999). Disponível em : http://www.medonline.com.br/med8/holismo.htm.
Acesso em: 23 jun. 2001.